Sobre o bom senso

Hoje tive mais um demonstrativo de como o bom senso é cada vez mais artigo raro no mercado.

Sempre digo que é nas pequenas ações do dia-a-dia que você percebe se as pessoas têm ou não bom senso. Discursos, pregações, frases e frases sobre fé não valem de nada se nas ações diárias a pessoa demonstra incongruência.

Hoje fui à missa com minha mãe. Na saída, vi que um carro tinha parado "meio torto" do meu lado. Sem problemas, até aí... percebi também que minha mãe conhecia o casal que ia sair com o carro. O homem, mais velho que a mulher. Os dois chegaram para a missa as 9h - quando ela era as 8h. Ok, se enganaram. Isso acontece.

Como vejo que o senhor tem um pouco de dificuldade para entrar no carro, eu entro logo para tirar o meu e deixar ele mais "livre" para sair. E também para minha mãe conseguir entrar no carro - já que ele tinha parado quase colado na minha lateral e ela não conseguia entrar. Dou a primeira ré e vou um pouco para a frente - pela maneira com que ele tinha estacionado, eu teria que fazer outras duas manobras para sair (como mínimo). Quando penso em dar a segunda ré, o homem também resolve dar a ré.

Resumindo a novela: ele não foi capaz de esperar eu sair para, então, tirar o carro dele. Conhecendo os "homens típicos" como ele, eu obviamente fiquei parada no meu lugar. Algumas manobras lentas dele depois, eu consegui dar a minha ré e finalmente sair - antes dele, inclusive.

Antes de sair, reparei na dificuldade dele em manobrar. E daí minha mãe me explica: ela conhece o casal, de outra igreja, e sabe que o homem tem uma grande dificuldade de caminhar. E daí chegamos à moral desta história: mesmo tendo essa dificuldade toda ele não se convence que não pode dirigir.

Perguntei para minha mãe: "Sinceramente, pela maneira com que ele manobra, pela dificuldade que ele tem de dar simples voltas com o carro dele, você acha que em uma situação de freada brusca ele teria condições de parar a tempo?". Minha mãe categoríca: não.

Então alguém pode me explicar por que o cidadão insiste em fazer algo que não pode mais fazer?

Para mim, falta bom senso e sobra arrogância e/ou "soberbia". Afinal, o que custa admitir que você chegou a uma idade ou a uma situação na vida em que não pode continuar fazendo coisas que fazia? Dirigir não é imprescindível. Nunca foi. Quantas pessoas não tem carro e vivem suas vidas normalmente?

Por três anos eu vivi em Madrid sem carro. Ok, alguém pode dizer que a situação é outra, porque Madrid oferece uma variedade de transportes públicos que poucas cidades no Brasil - ou quem sabe nenhuma - oferecem. Certo, até aí tudo bem. Mas se amanhã eu não tivesse carro por aqui, adaptaria minha vida para continuar fazendo tudo que tenho vontade sem ele.

As pessoas deveriam aprender que não são imbatíveis, que alguns "luxos" não são maiores que suas vidas e saúde. Deveriam também respeitar, mais que tudo, a vida alheia. Afinal, um senhor como aquele, mais que a sua vida, coloca a de outros em risco.

Eu fico "passada" com essa falta de bom senso. E o pior: não há cristão (ou budista, ou islamista, ou o que for) no mundo que convença a pessoa de que ela não tem mais condições de fazer aquilo. Em sua arrogância ela acha que pode, que pode tudo, que sempre poderá tudo. Não, meu amigo, você não pode!

Também serei justa... não sei até que ponto é arrogância, "soberbia", falta de bom senso ou a simples dificuldade em aceitar os próprios limites (e o nome disso não seria "sobérbia"?) e aceitar que a idade também pesa e que muitas coisas na nossa vida escapam das nossas mãos (inclusive em qualquer idade).

Mas independente da razão ou da "desculpa", acho que as pessoas deviam gastar um pouco de sua inteligência e de seu precioso tempo para, volta e meia, refletir sobre o que andam fazendo da sua - e das nossas - vida(s). A sociedade agradece.

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